Marianita fala da emoção de integrar a Calçada da Fama do Grêmio "Até a pé nós iremos para o que der e vier. Mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio onde o Grêmio estiver". A estrofe do hino do Grêmio foi cantada por Marianita Nascimento quando questionada sobre gremismo, em uma longa conversa com o ge, na última semana. A diretora do departamento de futebol feminino do Tricolor, aos 64 anos, será homenageada na Calçada da Fama do clube na noite desta segunda-feira. Ela será, segundo o Grêmio, a primeira mulher a receber tal honraria por um clube de futebol no Brasil.
Ao final da década de 1970, quando a prática de esportes “incompatíveis com a natureza feminina” era passível de multa e prisão, Marianita da Silva Nascimento começava a trajetória no futebol. Nascida em 1960 em Porto Alegre e criada na zona leste da capital, Marianita cresceu em uma casa onde o azul, preto e branco faziam parte do cotidiano. Filha de Aymoré Nascimento, ex-conselheiro do Grêmio, e irmã de Deco Nascimento, também ex-dirigente gremista, ela encontrou no futebol um propósito.
Acho que é questão de sonho. As meninas que gostam, que querem, precisam se permitir. O futebol ensina a ser corajosa, a lidar com vitórias e derrotas, a crescer. Só vai viver quem se arriscar. Só vai construir sonhos quem tentar. — Marianita Nascimento — Eu aprendi a jogar futebol com meu irmão mais velho. E não é que eu trocasse as bonecas, né? Eu tinha bonecas, mas a minha preferência era sempre estar jogando. Essa relação com a bola, de dominar, de ter o controle sobre ela, sempre fez parte da minha vida — conta ela.
Ainda adolescente, Marianita jogava com os "guris" da rua, primos e irmãos. Passou a frequentar quadras públicas do Parque Marinha do Brasil, na capital, e ali formou um grupo com outras meninas. Foi quando percebeu que havia algo especial. Quando eu olhei e vi que a gente ganhava dos guris, eu disse: 'Olha, acho que dá pra fazer alguma coisa diferente'. — Marianita Nascimento
A ideia de criar um time feminino dentro do Grêmio surgiu a partir daí, em casa. E ela mesma decidiu levar a proposta, pessoalmente, ao então presidente Hélio Dourado. O projeto foi aceito e o grupo começou a treinar. Mas logo veio a descoberta: o futebol feminino era proibido no Brasil.
Mesmo assim, o movimento não parou. As "gurias do Grêmio" continuaram atuando de forma amadora e clandestina até 1979, quando a proibição por lei caiu. — Eles devem ter pensado: "Não adianta, a gente vai prorrogar e essas meninas vão continuar jogando, dando um jeito" e acho que foi uma luta, no país todo. Ela é validada por mim e tantas outras, além das pessoas que nos apoiavam, tinham homens também, que fizeram uma força tarefa de "vamos lá, gurias, não desistam". Acho que isso foi muito importante.
A dirigente inclusive destaca a importância da participação de Fraga no movimento, quando, em 1981, o tema foi encaminhado à Câmara de Vereadores de Porto Alegre. No ano seguinte. Marianita tornou-se membro da comissão da Federação Gaúcha de Futebol que elaborou o anteprojeto enviado ao Conselho Nacional de Desportos.
No mesmo ano, foi convocada para integrar a equipe brasileira que representaria o país em uma excursão pela Europa, durante a Copa do Mundo masculina. A viagem passou por cidades como Barcelona e Sevilla. O grupo ficou em segundo lugar no torneio, atrás apenas do Esporte Clube Radar, uma das potências da época.
Quatro décadas depois, Marianita voltou ao Grêmio como diretora do Departamento de Futebol Feminino, a convite do presidente Alberto Guerra. Lidera as Mosqueteiras ao lado da também ex-jogadora Karina Balestra e da ex-técnica Patrícia Gusmão. Desde novembro de 2023, lidera o projeto que levou as Mosqueteiras às conquistas do Campeonato Estadual e da Brasil Ladies Cup em 2024.
A homenagem e a imortalidade: Desde que soube da notícia, a ex-atleta diz que uma emoção tomou conta dela. E faz questão de destacar o papel das Pioneiras, o primeiro grupo de jogadoras do Tricolor. Os pés são meus, mas tem todo um legado atrás. É difícil explicar o que isso representa. É um prêmio imortal. — Marianita Nascimento — Não só por mim, mas pelas minhas companheiras, por todo mundo que ajudou nessa luta. É o contexto geral de todas essas pessoas que proporcionaram que a gente chegasse com êxito à profissionalização do futebol no Brasil — explicou.
A cerimônia da Calçada da Fama gremista ocorre nesta segunda-feira, às 18h. Marianita será homenageada junto de Arce e Carlos Miguel, ex-atletas multicampeões com o Grêmio.
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