Readaptação, metas curtas e torcida: especialistas analisam como será a volta do futebol

Médico, psicóloga, doutor em Ciências do Esporte, marketing e torcedores falam sobre mudanças para retorno do esporte


Fonte: Globoesporte.com

Foto: Lucas Uebel / Grêmio FBPA
Nas proximidades dos estádios, o cheiro da gordura queimando no carvão confunde o churrasco com a grande decisão que se aproxima. O ônibus trazendo a delegação passa, e o ambiente fervilha.



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Porém, após a pandemia do coronavírus, o futebol do passado viverá só no imaginário de quem frequenta as arenas, seja para torcer ou jogar.

Há mais de 100 dias sem futebol, o GloboEsporte.com e a RBS TV olham para o futuro. Projeta os novos protocolos para atletas e participantes do evento, pensa em como manter o torcedor por perto mesmo com portões fechados...

A Federação Gaúcha de Futebol (FGF) já entregou para o governo estadual um documento que detalha todas as medidas para o retorno do Campeonato Gaúcho, que segue sem data definida. A primeira dela tira dos apaixonados a chance de acompanhar de perto seus clubes do coração, mas é compreensível em meio a uma pandemia.

Nós vamos ter que conviver com este novo normal e não vai ser uma expressão do que foi o nosso passado. Vai ser uma coisa nova, um mix entre o que a gente era e o que nós vamos ser, do que nós somos atualmente. Mas não um retorno integral ao que nós já fomos — aponta o infectologista Gabriel Narvaez em entrevista para a RBS TV.

Estima-se que, em uma rotina normal de jogos, mais de 2 mil profissionais são envolvidos — somadas todas as áreas com número máximo de pessoas. As partidas pós-pandemia terão, no máximo, 112 pessoas, sendo 31 de cada equipe. E todos testados para Covid-19.

Os rígidos protocolos e o esvaziamento dos estádios devem perdurar por um tempo indeterminado. Os clubes terão de se adaptar ao fato de não contarem com receitas do dia da partida. O Beira-Rio, por exemplo, já tem um protocolo próprio com restrições de funcionamento.

Compare o antes e o depois da Covid-19:

• Público: Com torcida - Sem Torcida
• Delegações: 50 a 70 pessoas - Máx. 30 pessoas
• Envolvidos no evento (campo): 90 a 300 pessoas - Máx. 25 pessoas
• Áreas internas do estádio: 70 a 200 pessoas - Máx. 25 pessoas (exceto Gre-Nal e final)

Adaptação e metas curtas
Toda essa mudança, aliada ao público ausente nas arquibancadas, obriga os atletas a se adaptarem, na visão da mestre em Psicologia do Esporte, Fernanda Faggiani, professora da PUCRS e psicóloga nas categorias de base do Grêmio.

A rotina diária de treinos — que já chega à oitava semana para Grêmio e Inter — retira o estranhamento de ver os companheiros de máscara e a realização de testes.

Um dos fatores é torcida, que não vai ter. Temos um fator ambiental que vai ser retirado. E ele é um dos fatores de estímulo para as equipes. A tendência é uma adaptação. Que primeiro, segundo, terceiro sejam jogos de adaptação a uma nova realidade. Depois estarão mais acostumados a lidar com essa nova realidade. E, quando voltar a ter torcida, vai ser um novo impacto — explica Fernanda.

"Adaptação sempre foi um termo de seleção natural, de vida. Quem é que sobrevive? Os mais aptos a novas situações" (Gabriel Narvaez, infectologista)

Apesar do caráter "heroico" despejado aos atletas pela população, todos são de carne e osso. Vivem as incertezas do vírus como tantas milhões de pessoas no Brasil. Dúvidas sobre um futuro indeterminado, medos e até sintomas depressivos estão entre as situações observadas durante a pandemia.

Os níveis de ansiedade e sintomas depressivos são os que mais têm aumentado. E a questão da qualidade do sono. Gasta-se muita energia em treinos e jogos. Quando começa a não ter essa rotina, isso impacta diretamente no sono — destaca a psicóloga.

"São atletas, mas têm as mesmas angústias, os mesmos sintomas diante das incertezas" (Fernanda Faggiani, psicóloga do Esporte)

Ao mesmo tempo, a preocupação com o coronavírus também retira referências dos jogadores. As preparações visam objetivos tangíveis. Hoje em dia, sem data para retorno do futebol, eles se distanciam. A consciência de se manter em forma precisa vir de metas curtas para os atletas.

No momento, o planejamento e metas precisam estar de acordo nas nossas possibilidades. E hoje é o treino. Estabelecer metas curtas é superimportante, pensar em desafios para se surpreender, ser melhor que era. Fisicamente, melhorar o que não podia antes — sugere Fernanda.

Relação com a torcida
A última vez em que torcedores puderam ingressar nos estádios de Porto Alegre foi no dia 12 de março. Tamanha expectativa criada pelo primeiro Gre-Nal da história da Libertadores virou o mundo de cabeça para baixo.

Só que a brincadeira dos torcedores convive com a tristeza de não viver mais a atmosfera dos estádios. O tal "cheiro" de futebol ficou perdido 100 dias atrás.

O que eu mais sinto falta do futebol é o momento que tu estás com os amigos, o Beira-Rio me traz esse tipo de lembrança. De estar com os amigos, de chegar horas antes, fazer churrasco, falar sobre o time. E também do tempo em família, que não é totalmente colorada, então até aquela flauta eu sinto falta — relata o colorado Lucas Antônio, administrador de empresas.

A gente não consegue entender a vida sem o Grêmio. Porque tu se sentes bem no estádio. As pessoas vão nos lugares porque se sentem bem. O que é o coração da Arena? É a torcida. Aquilo sem torcida é triste — diz o gremista Shannon Loss, conhecido como Mexicano.

Doutor em Ciências do Esporte e professor da PUCRS, Luis Henrique Rolim desenvolve pesquisa sobre aspectos socioculturais e históricos em modalidades olímpicas. O futebol deixa uma lacuna, mas não pode ser comparável ao sofrimento causado pela Covid-19.

Nossa cultura esportiva é voltada para o futebol. Tem um impacto grande nas pessoas que vivem disso, que realmente faz parte do ser delas. A pessoa que tem tatuada na pele, não ter aquilo é um causador de incômodo, mas vivemos um momento tão único que esse sofrimento não pode ser comparado ao da perda de uma pessoa — diz Rolim.

Os estádios não receberão torcedores. Isso irá gerar uma nova relação dos clubes com o público. O Brasil de Pelotas, por exemplo, já começou a colocar imagens de torcedores nas arquibancadas do Bento Freitas.

O vice de marketing do Inter, Nelson Pires, vê a oportunidade de amplificar a relação com os sócios a partir dessa distância obrigatória. Na visão do dirigente, os colorados — mas vale a todos os apaixonados — não se relacionam apenas com o clube para estar nos jogos.

O que vamos ter que fazer é isso, por meio do mundo digital, dar acesso a mais do que ele (sócio) tem hoje. Vamos ter que redesenhar a relação da torcida com o clube — comenta Pires.

Mensagem à sociedade
A volta do Campeonato Gaúcho era trabalhada para o dia 15 de julho. Mas pode passar para o início de agosto por conta dos números crescentes de infectados pelo novo coronavírus no Rio Grande do Sul.

A corrida para fazer a bola rolar novamente, baseada no discurso da crise dos clubes, traz certa inquietação a Rolim. O pesquisador vê no atual problema uma maneira de humanizar mais os clubes e aproximá-los do torcedor outra vez.

A mensagem não seria de normalidade ou de novo normal. Mas de resiliência, de dizer que estamos juntos, voltando para que as pessoas tenham o entendimento que estamos lutando juntos e nos adaptando. Mas não vejo esse tipo de mensagem sendo transmitida. Vejo uma corrida desenfreada. O único debate é que o clube vai quebrar — conclui Rolim.



Para seguir a linha do pesquisador, o esporte é necessário e apresenta um canal de paixão para os torcedores. Também para demonstrar que todos superamos um momento ímpar da história humana com toda força possível.


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