Emerson, junto dos jovens jogadores do Fragata FC
Foto: Nauro Júnior / Agencia RBS
Emerson Ferreira da Rosa dispensa apresentações, mas ainda assim o farei. Nesse mundo rápido em que a memória coletiva é o tempo de vida de um tuíte, nunca é demais perder um tempinho com elas. Para se tornar um cidadão do mundo através do futebol, Emerson superou adversidades.
Na infância, teve bronquite asmática. Tinha uma perna mais curta que a outra, mas teimou em ser jogador de futebol. Uma lesão no joelho logo no começo da carreira, no Grêmio, lançou a suspeita: suportaria o tranco nada amável das divididas do futebol de competição por quanto tempo?
Quando saiu do Olímpico para o Bayer Leverkusen, houve quem entendesse que era melhor negociá-lo antes que se quebrasse de uma vez. Estavam errados. Após três anos na Bundesliga, e lá só os fortes sobrevivem, passou quatro temporadas na Roma. E, depois, Juventus, Real Madrid e Milan.
Teria sido Penta no Japão se Felipão não tivesse cortado o seu capitão e confidente, sem lhe dar satisfação alguma, devido a uma lesão no ombro às vésperas da estreia. Nada mal para quem começou a correr só depois dos 10 anos. Antes, os médicos proibiam.
Por isso levei um susto quando ouvi de Emerson que ele pensa em desistir do seu projeto social, o Fragata FC. O nome do clube vem do bairro homônimo, o mais pobre de Pelotas. São centenas de crianças atendidas numa estrutura de Copa do Mundo. É um centro formador de jogadores, mas especialmente de cidadãos.
A maioria dos meninos do Fragata não vingará no futebol, mas herdará um bem mais valioso: a oportunidade, através da educação, da alimentação, da assistência médica e psicológica. Só que, claro, é preciso dinheiro para bancar tudo isso. E o dinheiro vem dos talentos lapidados e negociados.
É o caso de Marciel, volante do Corinthians. Marca com força, sai para o jogo e faz gols. Virou o xodó da torcida corintiana após se destacar na Copa São Paulo. Emerson aceitou a proposta de R$ 1,5 milhão em 12 parcelas, por 50% dos direitos econômicos. O ex-capitão da Seleção suspirou, aliviado. Com pouco mais de R$ 100 mil por mês, o negócio custearia o Fragata durante um ano, talvez até mais. No mundo real, sonhos custam caro. Veio a decepção:
– Não recebi nada. Compreendo a crise dos clubes. Não é só o Corinthians. Ninguém paga ninguém. Aí você vai atrás e falam que, em última instância, é para procurar seus direitos. Sabe, não preciso disso. Não quero passar por uma situação constrangedora dessas. O meu trabalho no Fragata é revelar jogadores. Não tenho a pretensão de competir com grandes clubes ou superempresários. É uma estrutura acessória, que dá oportunidade a meninos da região sem condições de tentar a sorte em Grêmio ou Inter. Mas para bancar tudo isso, especialmente a parte social, preciso de recursos. É isso que me faz pensar em fechar tudo e desistir: não peço nada além do pagamento pelo meu trabalho. O Cafu, que é um cara excepcional, nem gosta mais de transitar nesse ambiente. Foge, inclusive. Há dirigentes e empresários que nos veem e logo pensam que a gente está ali para tirar o lugar deles. Repito: não precisamos disso.
Emerson fala em retomar a carreira de treinador, abortada quando deixou o cargo de auxiliar técnico de Luxemburgo no Grêmio para se dedicar ao Fragata. Lembrei-me de quando o puxei pela camisa na zona mista do Estádio Vélodrome, de Marselha, em 1998, depois que ele converteu sua cobrança na decisão por pênaltis, naquela semifinal lendária contra a Holanda. Implorei por uma exclusiva, e sabe como são exclusivas na CBF em períodos de Copa. Não pode. Zé Carlos, o lateral que imitava bichos, ajudou. De cantinho, já que ninguém o procurava para entrevistas, passou-me o contato de Emerson. É esse Emerson, acostumado a vencer obstáculos e a ajudar os outros, que agora pensa em desistir de um sonho.
Não desista, Emerson. É o que eles querem. O futebol fica melhor com personagens como você.
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Foto: Nauro Júnior / Agencia RBS
Emerson Ferreira da Rosa dispensa apresentações, mas ainda assim o farei. Nesse mundo rápido em que a memória coletiva é o tempo de vida de um tuíte, nunca é demais perder um tempinho com elas. Para se tornar um cidadão do mundo através do futebol, Emerson superou adversidades.
Na infância, teve bronquite asmática. Tinha uma perna mais curta que a outra, mas teimou em ser jogador de futebol. Uma lesão no joelho logo no começo da carreira, no Grêmio, lançou a suspeita: suportaria o tranco nada amável das divididas do futebol de competição por quanto tempo?
Quando saiu do Olímpico para o Bayer Leverkusen, houve quem entendesse que era melhor negociá-lo antes que se quebrasse de uma vez. Estavam errados. Após três anos na Bundesliga, e lá só os fortes sobrevivem, passou quatro temporadas na Roma. E, depois, Juventus, Real Madrid e Milan.
Teria sido Penta no Japão se Felipão não tivesse cortado o seu capitão e confidente, sem lhe dar satisfação alguma, devido a uma lesão no ombro às vésperas da estreia. Nada mal para quem começou a correr só depois dos 10 anos. Antes, os médicos proibiam.
Por isso levei um susto quando ouvi de Emerson que ele pensa em desistir do seu projeto social, o Fragata FC. O nome do clube vem do bairro homônimo, o mais pobre de Pelotas. São centenas de crianças atendidas numa estrutura de Copa do Mundo. É um centro formador de jogadores, mas especialmente de cidadãos.
A maioria dos meninos do Fragata não vingará no futebol, mas herdará um bem mais valioso: a oportunidade, através da educação, da alimentação, da assistência médica e psicológica. Só que, claro, é preciso dinheiro para bancar tudo isso. E o dinheiro vem dos talentos lapidados e negociados.
É o caso de Marciel, volante do Corinthians. Marca com força, sai para o jogo e faz gols. Virou o xodó da torcida corintiana após se destacar na Copa São Paulo. Emerson aceitou a proposta de R$ 1,5 milhão em 12 parcelas, por 50% dos direitos econômicos. O ex-capitão da Seleção suspirou, aliviado. Com pouco mais de R$ 100 mil por mês, o negócio custearia o Fragata durante um ano, talvez até mais. No mundo real, sonhos custam caro. Veio a decepção:
– Não recebi nada. Compreendo a crise dos clubes. Não é só o Corinthians. Ninguém paga ninguém. Aí você vai atrás e falam que, em última instância, é para procurar seus direitos. Sabe, não preciso disso. Não quero passar por uma situação constrangedora dessas. O meu trabalho no Fragata é revelar jogadores. Não tenho a pretensão de competir com grandes clubes ou superempresários. É uma estrutura acessória, que dá oportunidade a meninos da região sem condições de tentar a sorte em Grêmio ou Inter. Mas para bancar tudo isso, especialmente a parte social, preciso de recursos. É isso que me faz pensar em fechar tudo e desistir: não peço nada além do pagamento pelo meu trabalho. O Cafu, que é um cara excepcional, nem gosta mais de transitar nesse ambiente. Foge, inclusive. Há dirigentes e empresários que nos veem e logo pensam que a gente está ali para tirar o lugar deles. Repito: não precisamos disso.
Emerson fala em retomar a carreira de treinador, abortada quando deixou o cargo de auxiliar técnico de Luxemburgo no Grêmio para se dedicar ao Fragata. Lembrei-me de quando o puxei pela camisa na zona mista do Estádio Vélodrome, de Marselha, em 1998, depois que ele converteu sua cobrança na decisão por pênaltis, naquela semifinal lendária contra a Holanda. Implorei por uma exclusiva, e sabe como são exclusivas na CBF em períodos de Copa. Não pode. Zé Carlos, o lateral que imitava bichos, ajudou. De cantinho, já que ninguém o procurava para entrevistas, passou-me o contato de Emerson. É esse Emerson, acostumado a vencer obstáculos e a ajudar os outros, que agora pensa em desistir de um sonho.
Não desista, Emerson. É o que eles querem. O futebol fica melhor com personagens como você.
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