Mexer em qualquer regra do futebol é como manusear um cristal. Há uma complexidade tão particular neste esporte, que até a forma de transmiti-lo, as mudanças dramáticas na maneira de levar suas imagens à casa das pessoas ao longo das últimas três décadas, provocam até hoje uma interminável batalha entre as leis do jogo e a tecnologia. No fundo, é este duelo que está por trás de controvérsias como a que cercou o pênalti decisivo do Flamengo x Grêmio de quarta-feira. O futebol ainda não se adaptou ao avanço da tecnologia. Difícil encontrar um modalidade que tenha sido impactada de maneira tão drástica, quase que colocada contra a parede.
Primeiro, é bom esclarecer: de acordo com a regra, ou especialmente de acordo com a forma como a regra é adotada no Brasil, o Grêmio não foi prejudicado no Maracanã – e o Flamengo não foi beneficiado. Semanas antes, em Salvador, aí sim os gaúchos tiveram do que reclamar num jogo com o Bahia. Mas o pecado principal não está aí. O problema é que a evolução das regras do toque de mão tiraram um bem precioso do futebol: a sensação de ser um esporte cujas normas sempre estiveram ao alcance de todos. Hoje, olhamos para um toque de mão e corremos para consultar um especialista.
Jogadores do Grêmio reclamam de pênalti marcado — Foto: Eduardo Moura
Jogadores do Grêmio reclamam de pênalti marcado — Foto: Eduardo Moura
E por que mudaram tanto as interpretações sobre o que vale ou o que não vale fazer com as mãos dentro da área? Porque a tecnologia das transmissões esportivas tornou insustentável um antigo pacto que vigorava no jogo. As áreas eram um terreno de leis próprias, em que jogadores se chocavam, se puxavam, eventualmente esbarravam com a mão ou o braço na bola, mas todos assumiam que, no fundo, o que se passava ali dentro era insuficiente para gerar a penalidade máxima. Inclusive o árbitro. Daí ser plenamente cabível, e universalmente aceito, tratar a intenção como o único elemento necessário para decidir sobre a marcação de um pênalti. Na imensa maioria dos casos, eram punidos os lances mais claros, aqueles vistos por todos os espectadores. Enquanto isso, permitia-se que fosse jogado, dentro da área, um jogo que quase ninguém via.
A tecnologia não entrou no futebol através do VAR. Ao contrário, o VAR é a tentativa de resposta do jogo ao crescente uso da tecnologia nas transmissões. O que, a rigor, era e é um acerto: empresas de mídia lançando mão dos melhores recursos para informar o público. O resultado, no entanto, foi perturbador. Recebíamos em casa um jogo diferente do que era apitado pelos árbitros, um jogo que não víamos até então. Primeiro veio o tira teima, depois a câmera lenta, o zoom, o HD, o 4K. Passou a ser possível fazer uma auditoria de cada jogada. Notar em que momento o braço do jogador se distanciou do tronco, em que ângulo, o quanto modificou a trajetória da bola, se houve um bloqueio, se era apenas resultado do reflexo ou da tentativa de ganhar impulsão.
Agora, é possível avaliar se o cotovelo que estava junto ao corpo, numa tentativa do zagueiro de não tocar a bola, acabou se movendo, mesmo que por milímetros, após um chute em direção ao gol. Na quarta-feira, todos os recursos disponíveis, quase que num exame pericial, foram usados para tentar entender se Lucas Moura tocara ou não com a mão na bola antes de vê-la cruzar a linha do gol defendido por Cássio.
Antes do VAR, os recursos estavam à disposição de todos, menos do árbitro. Era um anacronismo insustentável. Mas a adoção da arbitragem de vídeo é apenas um dos efeitos dramáticos sentidos pelo jogo. A lógica da intenção já não bastava mais. Porque no detalhe de cada replay, na super câmera lenta, o toque de mão grita como uma evidência que não se permite mais ser ignorada. Um lance que dura fração de segundo preenche todas as telas por longos minutos, em seguidas repetições. Parece uma infração grande demais para o futebol fingir que não ocorreu.
E como passa a ser possível entender cada movimento realizado, os responsáveis pelas leis do jogo iniciam uma eterna briga de gato e rato. A cada nova situação apresentada, cria-se uma nova recomendação. Surge o braço de apoio, o movimento antinatural, o braço de bloqueio, o contato de referência. O pacto é totalmente refeito: de territórios com leis próprias, onde o grande público via, talvez, 10% dos eventos, as duas áreas passaram a ser os terrenos mais vigiados do jogo. Eliminava-se, cada vez mais, o elemento da intenção. Porque, para fazer frente a tantas evidências de vídeo, era preciso elaborar quase um checklist para o árbitro de campo enquadrar, cada lance, numa situação prevista pela regra ou por suas interpretações.
A ideia é compreensível. Provavelmente, é até necessária: dar credibilidade a um esporte cujas decisões de campo eram desmascaradas pelos melhores momentos da TV. No entanto, mais do que fugir ao domínio e à compreensão da arquibancada, as regras passaram ao extremo oposto. No lugar de apontar apenas lances escandalosos e ignorar infrações na área, o futebol hoje fabrica pênaltis que soam artificiais: a penalidade para a infração mínima.
Recentemente, um brilhante artigo do site The Athletic mostrou que, em 95% dos lances que terminam na marcação de um pênalti, a probabilidade de gol no momento da infração é de, no máximo, 19%. No entanto, quando a bola é levada para a marca do pênalti, todos os modelos automáticos situam a probabilidade de gol entre 76% e 78%. Ou seja, se a regra do pênalti já estabelecia uma desproporção entre penalidade e execução da infração, as atuais interpretações do toque de mão ampliaram a deformação. Era justificável aplicar a penalidade máxima numa lógica de fazer da área um lugar de proteção ao ataque. No entanto, hoje em dia se gera uma jogada com quase 80% de probabilidade de gol para punir um ligeiro movimento de cotovelo.
O futebol vive um dilema: ignorar a tecnologia é um retrocesso, fazer dela um elemento que produza mais ajuda do que distorções, ainda é um imenso desafio.
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