Amizade, agitação e "loucura": o que torna Felipão expert na Copa do Brasil

Ex-jogadores vencedores com Scolari traçam perfil do treinador que, tetracampeão, é o maior ganhador do torneio; na quinta, começa sua 10ª participação, contra o Santos


Fonte: Globo Esporte

Felipão é carregado pela torcida após o título de 1994 no Olímpico (Foto: José Doval/Agência RBS)

O próprio Felipão jamais escondeu que voltara ao Grêmio em busca de carinho após a avalanche de críticas no desastroso 7 a 1 na Copa do Mundo. O bom filho não retornou apenas ao lar, mas se prepara para revisitar também o torneio em que é especialista - responsável por tirá-lo do anonimato e alçá-lo ao hall dos grandes treinadores do país. Nesta quinta-feira, diante do Santos, dá início a sua décima participação na Copa do Brasil. São quatro títulos por três clubes diferentes - nenhum outro técnico alcançou tal marca.

O "mestre" do mata-mata tenta o penta, assim como o Tricolor gaúcho, que vencera três vezes com outros técnicos e mais uma, em 1994, com Felipão (assista à decisão desse título no vídeo acima). Os números de Scolari impressionam. Dos seus quatro títulos, três foram de maneira invicta. Além disso, foi semifinalista duas vezes e acumula ainda um vice-campeonato. O aproveitamento de pontos beira os 70%. A supremacia é tanta que não há nenhum outro treinador com mais de uma taça da competição.

A pergunta surge inevitável: qual o segredo de Felipão na Copa do Brasil? O GloboEsporte.com consultou ex-jogadores campeões com Scolari para traçar o perfil de um expert. Que tem a chance de mostrar que não desaprendeu a vencer após o abalo com a seleção brasileira. A receita é quase uníssona, baseada em amizade, mobilização e algumas cartas na manga para agitar as semanas decisivas.

Barcos pode ser o novo Agnaldo Liz

Por trás do bigode e dos trejeitos rudes, há um Felipão de sorriso fácil e companheiro. É o que garante Agnaldo Liz. O ex-zagueiro conquistou duas Copas do Brasil ao lado de Scolari. Primeiro, em 1994, com o Grêmio. Depois, em 1998, com o Palmeiras. Ou seja, tem currículo para tentar explicar o lado “copeiro” do treinador. Atualmente, quem pode repetir a dobradinha é Barcos, que venceu com Luiz Felipe pelo Verdão em 2012, eliminando o Tricolor na semifinal.

Para Agnaldo, que hoje é técnico e declaradamente inspirado em Felipão, seu ex-comandante conseguia passar aos jogadores o quão diferente era uma partida de Copa do Brasil em relação a outros campeonatos.

- É muito difícil diferenciar. Na rotina, eles acabam caminhando juntos. Mas o Felipão, no tratamento diário, ele fazia transparecer que eram diferentes. E os atletas mais experientes sentiam isso e passavam aos mais jovens. O Felipão é assim. Deixa claro que existem lideranças e dá muita liberdade a elas - atesta.



Pingo era o capitão em 1994 e saúda o que considera uma espécie de repetição da fórmula de sucesso: mesclar jovens e experientes:

- Felipão é uma pessoa de muito caráter, olha na cara do jogador, consegue fazer que o jogador corra para ele. Quando ele consegue unir os experientes com os jovens, o resultado sempre é positivo. Essa mescla ele está fazendo hoje também.

De acordo com Agnaldo, essa trupe de experientes ajudou a manter Felipão no cargo antes daquela Copa do Brasil. Momento de turbulência semelhante vivido em seu primeiro título no torneio, em 1991, pelo modesto Criciúma. E, depois, em 1998, com o Palmeiras, quando Agnaldo convenceu o treinador a permanecer no clube durante café da manhã no hotel antes do jogo decisivo com o Botafogo, pelas oitavas.

- Acabei fazendo o gol da classificação, já no finalzinho - relembra Agnaldo, direto de Santa Catarina. - Essas atitudes inesperadas deles são para mobilizar. Ele mata no peito, ao estilo paizão, e deixa o jogador confiante. Porque ele tira a pressão do atleta e carrega com ele. Às vezes, era coisa de maluco o que ele fazia para agitar o ambiente. Típico de um artista.



Ex-zagueiro hoje busca clube para treinar (Foto: Diego Ribeiro / Globoesporte.com)

Além de às vezes dramatizar um pouco para sacudir o vestiário, Felipão também sabe assar uma boa carne. Usava os churrascos com o grupo como outra forma de aglutinação. Artilheiro gremista na Copa do Brasil de 1994, Nildo segue a linha de Agnaldo e lembra um comandante muito apegado aos jogadores experientes no trabalho de amadurecimento dos mais jovens.

- Ele sempre nos reunia nos churrascos e pedia para conter a empolgação da meninada - conta Nildo, desde Manaus, onde trabalha como auxiliar técnico. - E ele blinda mesmo. Lembro que ele brigava com alguns jornalistas e alertava para as entrevistas nas semanas de jogos eliminatórios. Nunca dava arma para motivar os adversários.

Voltar 20 anos no tempo levou nostalgia à mente de Nildo, que admitiu vontade de estar no clube no momento para sentir esse clima que, segundo ele, só Felipão sabe criar.

- Gostaria de estar vivendo isso. Porque ele vive intensamente, tanto que consegue passar para os jogadores uma motivação especial. Eu ficava até escurecer finalizando nos treinos. O Agnaldo fazia o mesmo nos pênaltis. Ele sabe tirar o máximo de cada um e tem o dom do convencimento. Torço para que ele possa apagar o mais rápido possível essa imagem do 7 a 1 - projeta o ex-centroavante, que passou para um de seus filhos o fanatismo pelo clube.

Jogo feio e sem estrelismo

Em termos táticos, os ex-jogadores concordam que Felipão inventa pouco. É simples, direto e deixa claro o que quer na Copa do Brasil.

- Ele meio que mentaliza e martela: é melhor você perder de 2 a 1 fora do que de 1 a 0. A equipe dele sempre busca um gol fora e, em casa, tenta partir para cima e definir cedo - aponta Nildo.



Ex-centroavante é auxiliar técnico em Manaus (Foto: reprodução)

Agnaldo vai além. Mais do que pragmatismo, quer “jogo feio”. Menos estrela, mais raça.

- O Grêmio tem que jogar como o Grêmio sempre jogou. Com raça e vontade. Muita qualidade, ao meu ver, estraga. É o que os clubes temem. E o Felipão vai resgatar isso, até porque ele não está ultrapassado, como dizem. O Grêmio tem que jogar com raça, não bonito. O Grêmio não precisa ter estrela. Feio e eficiente, é o que torcedor gosta.

Grupo atual começa a entrar no espírito

Felipão tenta o penta da Copa do Brasil (Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA)

Felipão tem quatro jogos no comando do Grêmio em sua terceira passagem, todos pelo Brasileirão. Coleciona duas vitórias e duas derrotas. O tempo é curto, mas, em menos de um mês, já tratou de sinalizar os atalhos do próximo desafio, o da Copa do Brasil.

- É importante ter um treinador como o Felipão. Foi campeão de tudo. Temos aprendido bastante com ele. Esperamos fazer grandes jogos na Copa do Brasil para que a gente vá em busca de título. Vamos trabalhar para que dê tudo certo e que a gente possa comemorar no final do ano - afirma Werley.

- Ele já citou exemplos com o Palmeiras, com o próprio Criciúma, quando ele venceu a Copa do Brasil. Ele passou essa experiência que dentro de casa fazia o resultado sem tomar gol e fora de casa atuava por uma bola. Estamos muito bem instruídos. Agora é colocar na prática. É um cara experiente, vencedor e estamos felizes de poder contar com ele - confirma Giuliano.

A rota do duplo penta, de Grêmio e Felipão, ganhou um esboço por quem entende e já venceu com ele. Resta saber se Scolari manterá a mão firme para repetir o caminho. Se a máxima estiver valendo, há motivos para se animar. Afinal, quem um dia foi rei…

Felipão e Barcos no Palmeiras: campeões da Copa do Brasil de 2012. Repetirão a dose? (Foto: Jose Patricio/A. Estado)


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